Uma Arquitetura Fossil
- catiahtcfrias
- 30 de mai. de 2022
- 3 min de leitura
Pedra Liquida

O nº 703 (que foi 513) da Rua da Boavista representa um arquétipo dos loteamentos de “casas burguesas” que consolidaram a freguesia de Cedofeita, no Porto de final de Oitocentos. Dando corpo ao alinhamento da Rua da Boavista, traçada em direcção à Foz a partir da Praça de Santo Ovídio (hoje Praça da República), este loteamento, requerido pelo Conselheiro Boaventura Rodrigues de Sousa, consolidou o gaveto daquela rua com a Travessa do Priorado, seriando um conjunto de talhões, estreitos e profundos, que marcam, ainda hoje, o ritmo dominante das fachadas nesse eixo.
Destacam-se, dessa série, as duas casas do meio do quarteirão, que, por possuírem uma loggia superior, introduzem uma outra axialidade no conjunto, digna de destaque.
Em 2008, o atelier Pedra Líquida encarregou-se de criar um novo conceito para um hotel – Casa do Conto, arts & residence – numa oportunidade única de dar vida a uma dessas belas “casas burguesas” do Porto oitocentista, conjugando a residência temporária com actividades culturais. Nessa reabilitação procurou-se requalificar as fachadas e o interior do edifício, optando, sempre que possível, pelo restauro dos elementos preexistentes. Esta primeira proposta pretendia recuperar a memória faustosa da casa: os salões com grandes pés-direitos, os tectos de gesso temáticos, a escadaria central – um objecto escultórico em riga velha com as balaustradas em madeira torneada – e ainda a solenidade dos estuques e marmoreados, das portadas e dos altos rodapés…
Infelizmente, a 6 de Março de 2009, alguns dias antes da inauguração pública do espaço reabilitado, o edifício sofreu um terrível incêndio que destruiu, por completo, o seu interior.
Como arquitectos e criadores do conceito inicial, percebemos que tínhamos de reconstruir essa casa, se possível, de um modo, senão melhor, pelo menos tão qualificado como o anterior. De facto, a recriação da estrutura remanescente constituiu, para nós, uma nova oportunidade de, usando a metáfora da Fénix, fazer renascer um novo lugar de vida, a partir das cinzas do edifício destruído.
Nesse sentido, o novo projecto evoca, através de uma aproximação abstracta, a estrutura e a decoração da casa preexistente, usando materiais e técnicas tradicionais – os ripados de madeira dos tabiques, as chapas onduladas dos revestimentos e as superfícies curvas de contraplacado – como molde das novas superfícies em betão aparente: na caixa de escadas central, na fachada traseira, nas casas de banho cúbicas que preenchem cada um dos quartos, e na clarabóia oval que ilumina o centro do edifício, mantendo, ainda neste caso, a tradição portuense. Daqui resulta uma espécie de “arquitectura fóssil” na qual as novas superfícies reforçam a memória das já desaparecidas.
Os tectos, também em betão aparente, são (re)decorados com textos gravados, em baixo-relevo (apostos à cofragem), nos quais é possível ler diferentes narrativas sobre o conceito de “casa”, e desta casa em particular. Criados por seis autores relacionados com o Porto e com a sua arquitectura – Filipa Leal, Álvaro Domingues, André Tavares, Jorge Figueira, Pedro Bandeira e Nuno Grande –, esses textos são distribuídos pelos diferentes espaços, a partir de um trabalho interdisciplinar com os designers gráficos R2.
A Casa do Conto relata-nos uma história única de vida, que é, afinal, a história da própria cidade em mudança. Nela, destaca-se a arquitectura doméstica, solene e vertical, marcada pelas cicatrizes desse tempo que medeia o seu declínio e o seu renascimento, a memória do passado e o desejo de futuro, o granito das velhas fachadas e o novo betão cru que compõe o seu miolo. Num momento em que a reabilitação do património arquitectónico do Porto vive um aceso debate, face às tendências “fachadistas” dominantes, que destroem o miolo dos quarteirões em prol da manutenção e associação autista das frentes voltadas à rua, o projecto da Casa do Conto reivindica, para si, o direito de resgatar a memória da casa portuense, na sua unicidade matricial, na sua profundidade, na sua variedade de pés-diretos, na sua riqueza decorativa, enfim, na sua autenticidade ainda que encarnada por uma condição contemporânea.
Porto, Junho de 2012
Comentários